terça-feira, 20 de agosto de 2013

EMPORIUM

Aqui dentro de minha caixa de rascunho
guardo umas latas de querosene jacaré
uns rolos de corda bacalhau
uns anzóis e seus predicados
umas linhas de carretel e de náilon
uns nacos de carne-de-sol
umas caixas de ramona
retrós coloridos
uma porção de agulhas
enfiadas na carne das al-mofadas
e umas lembranças esquecidas
nas gavetas dos balcões
que sustentavam umas bobinas
de papel pra embrulhar as mercadorias
que meu pai vendia
muitas delas fiadas, anotadas
numa caderneta.
Ai, meu Deus, o que seria de nós
se não fossem as lembranças?
seríamos seres desmemoriados
e sem história. A vida seria muito triste!

domingo, 5 de fevereiro de 2012

BANZEIRO - a poesia em movimento: Francisco Perna Filho - Poema

É isso, grande Chico! Belo poema pra uma degustação literária deste domingo azul. Verve afiada, como a espada suave da Arcanjo Miguel penetrando nossa carne hipocondríaca porque pecadora. hehehee

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Com os olhos para a BR


O poeta e escritor Gilson Cavalcante ainda não conseguiu entrar para a Academia Tocantinense de Letras. Continua na mortalidade dos humanos. Mas pulsa como nunca em sua poesia. Depois de vencer o histórico e concorrido concurso da Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, em Goiás, recebe, agora, o Troféu Goyases 2011, no campo da poesia. A honraria é da Academia Goiana de Letras.
Se pudesse construir uma metáfora, diria que o poeta e jornalista Gilson Cavalcante já está, na literatura - que diria ser mais que parte de sua vida - com os olhos voltados para a BR (na direção Sul) e não mais para a Serra de Lajeado. Como tantos outros também já miram, com porquês que impõem convergências em função de motivações similares.
Para se ter uma idéia da dimensão do Troféu Goyases, este ano ele premiou além de Gilson, o renomado escritor Miguel Jorge e o escritor e ex-deputado Eurico Barbosa,dentre outros. Foram contemplados escritores nos ramos de poesia, romance, crônica, conto, ensaio e uma categoria especial.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Obra do poeta e jornalista Gilson Cavalcante é reconhecida em concurso da UBE-GO

O jornalista, poeta, escritor e compositor Gilson Cavalcante teve o seu livro de... poesia inédito A Mofina-flor de Morfeu premiado na Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, Da União Brasileira de Escritores – seção de Goiás. A divulgação do resultado ocorreu no final da tarde de terça-feira, na sede da entidade, em Goiânia.


Como prêmio, o poeta terá sua obra publicada (90 poemas) e mais 20 salários mínimos em dinheiro. A Mofina-flor de Morfeu é composto de poemas densos que falam da dor, do vazio e do nada, de forma lírica, filosófica, com pitadas de humor e com um esmerado jogo de palavras bem construído.

O livro de Gilson Cavalcante, de acordo com a comissão julgadora, composta pelos escritores e críticos literários Delermando Vieira Sobrinho, Carlos Willian Leite e Maria de Fátima Gonçalves Lima, A Mofrina-flor de Morfeu trata-se de uma obra poética “erguida dentro do contexto existencial, muito bem estruturada, cuja lírica se concretiza ao fôlego das ideias inerentes à dor humana, como, também, à eficácia do jogo de palavras, seus significados, estigmas e vicissitudes, tão correlatos ao íntimo do ser”.

A comissão conclui que o poeta Gilson Cavalcante “trabalha com concisão, lirismo, sem, contudo, deixar-se perder em suas nuances poéticas, ao sentido de suas ideias, bem como às imagéticas, mensagem e sabedoria”.

O poeta abre sua Morfina-flor com o seguinte poema: entro neste livro como um gerúndio: doendo, sangrando em palavras, ardendo na área do conflito. Não sei se voo ou grito.

Depois apresenta a dor que sente: eis aqui a dor: poema irrigado a sangue e morfina. O amor furou meus olhos, o amor-fêmea. Amorfo, procuro nos ossos o gesto de mim - forma e fundo. A dor morfológica morfema, morfina-flor. O poema em conta-gotas comprimido no coágulo. Grito, grito para anunciar essa dor coletiva que nos aglutina na contorção do mito.

Gilson Cavalcante se despede de sua dor e do seu vazio com o poema

“Em companhia de mim mesmo”

saio deste livro

(não sei se livre)

pingando o último poema

porém aliviado

apenas com uma cicatriz

nos olhos



vou voltar ao passado

e levo como presente

as coisas que deixei de lado



o futuro é o que se faz

alado

Gilson ja publicou 6 livros de poesia, dos quais dois foram premiados. "69 Poemas - Dos Lençóis e da Carne", em parceria com Hélverton Baiano, "Lâmpadas ao Abismo". "Ré/Ínventário da Paisagem", "Poemas da Margem Esquerda do Rio de Dentro", este contemplado com menção honrosa especial no concurso literário nacional PRÊMIO CIDADE DE JUIZ DE FORA, em 2001, "O Bordado da Urtiga", prêmio da Bolsa de Publicações Maximiano da Matta Teixeira, 2008, da Fundação Cultural do Tocantins, e "Anima Animus - O Decote de Vênus", Estes dois últimos foram publicados em 2009, sendo o primeiro em julho e o último no dia 31/12/09. Já ganhou vários concursos literários em Goiás e em outras regiões, com poemas avulsos.

Gilson vence Bolsa Hugo de Carvalho Ramos - Luiz Armando Costa


“Em companhia de mim mesmo”

saio deste livro

(não sei se livre)

pingando o último poema

... porém aliviado

apenas com uma cicatriz

nos olhos

vou voltar ao passado

e levo como presente

as coisas que deixei de lado

o futuro é o que se faz

alado



Gilson Cavalcante papou mais um concurso. Ainda não entendi essa Academia de Letras do Estado. Gilson ali não está, talvez por força de outras circunstâncias ou mesmo pela falta de interesse do poeta em ali se colocar. Sabe-se que na ATL tem de tudo: político, gente de um livro só, outros que fizeram coletânea de artigos publicados e o transformou em obra completa. Mas, convenhamos, como a imortalidade é da obra e não do autor, fica o dito pelo não dito.

Desde que conheço Gilson Cavalcante, o poeta e jornalista vive da mesma forma, livre e sem apegos a convenções. E isto faz tempo numa turma boa que tinha os também poetas e amigos Tião Pinheiro, Helverton Baiano, Edival Lourenço, Delermando Vieira, Pio Vargas, Tagore Biran, Ubirajara Gali, Goiamérico Felício, Brasigóis Felício. Era um grupo que se encontrava nos botecos no meio da semana para jogar futebol no domingo. Bom de copo, bom de pena mas, claro, ruim de bola.

Pois esta semana Gilson Cavalcante teve o seu livro de poesia inédito A Mofina-flor de Morfeu premiado na Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, Da União Brasileira de Escritores – seção de Goiás. A divulgação do resultado ocorreu no final da tarde de terça-feira, na sede da entidade, em Goiânia. É uma conquista e tanto. A Bolsa é, senão o maior, o mais importante prêmio literário do Centro-Oeste, uma das maiores honrarias do país.

Como prêmio, o poeta terá sua obra publicada (90 poemas) e mais 20 salários mínimos em dinheiro. A Mofina-flor de Morfeu é composto de poemas densos que falam da dor, do vazio e do nada, de forma lírica, filosófica, com pitadas de humor e com um esmerado jogo de palavras bem construído.

O livro de Gilson Cavalcante, de acordo com a comissão julgadora, composta pelos escritores e críticos literários Delermando Vieira Sobrinho, Carlos Willian Leite e Maria de Fátima Gonçalves Lima, A Mofrina-flor de Morfeu trata-se de uma obra poética “erguida dentro do contexto existencial, muito bem estruturada, cuja lírica se concretiza ao fôlego das ideias inerentes à dor humana, como, também, à eficácia do jogo de palavras, seus significados, estigmas e vicissitudes, tão correlatos ao íntimo do ser”.

A comissão conclui que o poeta Gilson Cavalcante “trabalha com concisão, lirismo, sem, contudo, deixar-se perder em suas nuances poéticas, ao sentido de suas ideias, bem como às imagéticas, mensagem e sabedoria”.

Gilson ja publicou 6 livros de poesia, dos quais dois foram premiados. "69 Poemas - Dos Lençóis e da Carne", em parceria com Hélverton Baiano, "Lâmpadas ao Abismo". "Ré/Ínventário da Paisagem", "Poemas da Margem Esquerda do Rio de Dentro", este contemplado com menção honrosa especial no concurso literário nacional PRÊMIO CIDADE DE JUIZ DE FORA, em 2001, "O Bordado da Urtiga", prêmio da Bolsa de Publicações Maximiano da Matta Teixeira, 2008, da Fundação Cultural do Tocantins, e "Anima Animus - O Decote de Vênus", Estes dois últimos foram publicados em 2009, sendo o primeiro em julho e o último no dia 31/12/09. Já ganhou vários concursos literários em Goiás e em outras regiões, com poemas avulsos.







A Morfina-Flor de Morfeu

O livro de Gilson Cavalcante, de acordo com a comissão julgadora, composta pelos escritores e críticos literários Delermando Vieira Sobrinho, Carlos Willian Leite e Maria de Fátima Gonçalves Lima, A Mofrina-flor de Morfeu trata-se de uma obra poética “erguida dentro do contexto existencial, muito bem estruturada, cuja lírica se concretiza ao fôlego das ideias inerentes à dor humana, como, também, à eficácia do jogo de palavras, seus significados, estigmas e vicissitudes, tão correlatos ao íntimo do ser”.
A comissão conclui que o poeta Gilson Cavalcante “trabalha com concisão, lirismo, sem, contudo, deixar-se perder em suas nuances poéticas, ao sentido de suas ideias, bem como às imagéticas, mensagem e sabedoria”.

II
eis aqui a dor:
poema irrigado a sangue
e morfina.

o amor furou meus olhos,
o amor-fêmea.

amorfo, procuro nos ossos
o gesto de mim
forma e fundo.

a dor morfológica
morfema, morfina-flor.

o poema em conta-gotas
comprimido no coágulo.

grito, grito
para anunciar essa dor
coletiva que nos aglutina
na contorção do mito.


III
não fui eu
quem inventou
a anestesia
nem o Anador.

inventei essa poesia
como tentativa de alívio
para nossa insônia.

nem o vazio inventei
embora repleto
em seu conteúdo.

de repente
sou o adorador
de ausências
enrolando o fogo
no círculo da serpente.


IV
dorme em mim
uma dor de marfim

não é de mármore
a memória do muro
de Berlim

vivo de acidentes
para recompor os olhos
diante da paisagem
visto que outono
me desmancha do outro
lado do ocidente

minha dor onera o sono
e Morfeu acorda os meus ombros
para o pesadelo de Sísifo

a pedra que tudo protela
me arremessa o corpo
acima da primavera

VIII
em Edu
a dor se educou
no fígado

(nas vísceras
o fogo de Prometeu)

a dor pedagógica
ensina o caminho
da lógica da flor
e do espinho

a dor e as suas aulas
de abstracionismo
no alívio do concreto
da arte de ¼ moderno

a cor da dor
no mar-te-lo ver-me-lho
inter-fere, Interferon
dentro da metáfora
a agulha se faz fantasia
dor, azia, ânsia

nem por isso a eutanásia

só quem tece a dor no fígado
sabe o fogo e o hálito do abismo


XII
codificaram a nossa dor
no DOI-CODI
a dor de não-lágrimas
a dor do silêncio

nossos retratos em 3x4
nossos dados gritos dedos
empilhados nos arquivos
mortos pesaram
sobre os anos de chumbo

o inventário dos ossos nossos
dilatados nos olhos

a delação na dor
embrulhada pela página
virada da história

de que adianta a exumação
dos cadáveres se a dor continua
com os seus martelos vermelhos?


XVII
se me doo
não grito

doar não
me deixa aflito

doer:
nosso eterno conflito

XX
a dor é transparente
e vem na ponta d´agulha
líquida onde mora
seu antídoto

antes do mito
ela mente

essa dor passa no sono?

dormir a dor
é um ledo engano

doer infinitamente
até entendermos a morfologia
desse sentimento

até doarmos o sangue
suficiente da guerra
que inventamos

ou sagrarmos
até a última gota do poema

a dor como dom
do resgate é plena

Em companhia de mim mesmo

saio deste livro
(não sei se livre)
pingando o último poema
porém aliviado
apenas com uma cicatriz
nos olhos

vou voltar ao passado
e levo como presente
as coisas que deixei de lado

o futuro é o que se faz
alado

sábado, 28 de maio de 2011

A Mestiça

Gilson Cavalcante

Os olhos dela têm um brilho acetinado. Mestiça raramente chora e, por isso, conserva a paisagem original do seu interior. Seus óculos perderam as pernas. E agora estão guardados no criado-mudo, embaçados pelas lágrimas vertidas no verão. Vive de recordações e de tecer sonhos. Mas não consegue se lembrar da infância, nem dos pais. Ficou órfã muito cedo, quando passou a viver sozinha, em um sítio próximo ao povoado da Boa Provisão. Não teve filhos. Apenas dois gatos e um cachorro da raça Labrador a fazem companhia. Sua música são os gorjeios dos pássaros. Sabe do tempo e das horas pelo canto do galo e pelo relincho de um jumento.
Acorda sempre às cinco da manhã e deita-se após ouvir a “Voz do Brasil”, quando passa a auscultar o coração da noite, a dar atenção às vozes que lhe vêm do fundo da alma. Sabe da vida e de seus desdobramentos pelos sinos lineares das cigarras e a fosforescência dos vaga-lumes. Aliás, foram com os bichos e insetos que ela compreendeu a luz. Com as plantas e as ervas aprendeu a medicina celeste.
Apesar de morar numa casa arejada, com varandas ao redor, sem energia elétrica, Mestiça não faz uso de velas nem de lamparina. (Uma lanterna de alumínio próxima ao filtro de água, esquecida por um visitante numa noite de lua cheia de um dia qualquer de anos atrás, exerce sua ferrugem sem nenhuma serventia). No fogão à lenha, desenvolve a magia alquímica da culinária natural e o poder dos chás. Só faz uma refeição por dia.
Quando sente saudade de algo inefável, cantarola, solfeja, assovia canções e vinhetas que ela mesma inventa. É quando fica nua sem se preocupar com quem pudesse chegar a qualquer momento. Mas, dificilmente recebe visitas, a não ser dos passarinhos que pousam em seus ombros no inicio da manhã e no finalzinho da tarde, quando o crepúsculo faz renascer em seus olhos as borboletas do outono, despetaladas a cada piscadela. Fecha-se a janela e Mestiça se volta para dentro, para o seu interior.
Se não fosse a poesia, a imaginação, já teria morrido. “Só a música e a poesia podem salvar o mundo”, divaga em seu silêncio, em seu solilóquio de plena ternura e alumbramento.
Mestiça me acorda no meio da madrugada. Quer que eu fale pra você, leitor, do seu, dela, ofício de tecelã. Fui estar com ela. Tirou-me do sono para mudar o curso dessa história. Ai, que sofrimento! Por que fui inventar essa ficção? “Diga aí para os seus leitores que sou feliz em minhas desfiaduras, que brinco com bilros como quem pratica balé com as mãos, que cardo o algodão como quem despenteia os cabelos de Medusa. Escreve que também faço macramê com umas embiras de palhas de babaçu e buriti. Tudo que faço está aqui bem guardado nesses baús empoeirados, nesses armários. São peças que guardo pra esperar meu amado. Eu sei que um dia ele vai aparecer. Tenho até uma grinalda e um vestido de noiva. Estava aqui pensando: não quer ser meu noivo? Você me inventou, agora cuida de mim, senão vou lhe assombrar para o resto da vida...”.
Olha aqui, Mestiça, sou poeta e vivo de imaginações. Ninguém pode interferir no meu ofício de escritor. Eu não interfiro no seu. Vamos fazer um pacto, entrar em um acordo para que não deixemos o leitor confuso e perdido nesse emaranhado de conjecturas e divagações. Estabeleceremos um romance que pode se tornar uma novela ou um seriado de TV. No final, morreremos abraçados, mas sem interferência de Shakespeare.
Do jeito que apareceu, Mestiça sumiu como um raio. Deixou-me sozinho, com a responsabilidade de terminar esta história. Ao contrário de Penélope, que tecia e desmanchava tudo o que fazia à espera de Ulisses, Mestiça aguarda o seu amado pelo acúmulo de lembranças. A única coisa que consegue desfazer são suas tranças. Nas horas vagas, tece cabelos como quem se prepara para um baile. Minha princesa começou a tomar forma quando meus olhos pesaram e debrucei-me sobre o computador.
Mestiça resolveu me visitar numa dessas madrugadas, quase amanhecendo o dia. No meio do caminho, começa a armar uma tempestade. Trovões e relâmpagos. Um raio caiu próximo, por ali, e ela, com o susto, sofre o desmaio. Após um tempo desacordada, Mestiça retoma os sentidos, passa as mãos nos olhos e fica em estado de expectativa, assustada. Mestiça não precisa mais levar a vida apalpando as coisas, andando pelos cantos, tropeçando em palavras. Ela ia me conhecer em braile. Ficou decepcionada com o que viu à sua volta: cenário de destruição da natureza. Nem quis mais saber de mim. Voltou dali meso, correndo desesperada.
Em casa, ainda trêmula, retirou a roupa encharcada, tomou banho e, ao sair do banheiro, deu de cara com o imenso espelho que fica na sala, em meio a seus apetrechos de tear. Assusta-se com a aquela imagem refletida. Não conhecia aquela pessoa ali à sua frente. Aliás, nem sabia da existência daquele espelho. Demorou um pouco para reconhecer que era ela mesma.
Começou a apalpar o corpo, num ritual de autoconhecimento. Fica demoradamente alisando os longos cabelos ondulados com alguns fios brancos. Não sabe se ri ou chora.
(Mestiça tinha noção das cores pelos seus estágios de transcendência mental. O seu arco-íris apresentava mais de sete cores, e a lua se desdobrava em de quatro fases).
Aqueles olhos de uma tonalidade violeta estão úmidos, não sei se de saudade ou de melancolia. Podem ser os dois sentimentos simultâneos. Tudo à sua volta lhe é estranho, apesar da intimidade que tem com os objetos e peças da casa.
Acaricia os lábios, balbucia algumas palavras ininteligíveis e continua em seu solilóquio até chegar aos seios. Fica enamorada com eles. Tenta beijá-los e não consegue. Começa a massageá-los, se excita e decide beliscar os mamilos com a mão esquerda e, com a direita, inicia o ritual da volúpia utilizando os dedos sobre o clitóris.
Após vários orgasmos, dirige-se vagarosamente em direção ao baú, onde está guardado as que teceu durante anos. Vasculha tudo e descobre o vestido de noiva com cheiro de guardado. Um vestido preto de cambraia, com tiras bordadas coloridas no seu barrado, confeccionado para o dia seu velório. Um decote generoso que dispensava sutiãs.
Veste aquela indumentária, calça as sandálias de couro rasteirinhas (ou rasteirinhas de coro?), e vai para a igrejinha do povoado.
Ajoelha-se em frente ao altar, faz o sinal da cruz e roga a Deus pelo seu amado.
Mestiça está lá até hoje na igrejinha, cumprindo promessa para o advento do amado que ela nem conhece. Vez por outra percebe o vulto de Penélope passando em frente ao altar. “Êta mundo complicado! Quero me encontrar com Narciso pra devolver aquele espelho besta”.